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Anemia por deficiência de ferro

Elaborado por:
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos
Anemia por deficiência de ferro  

A "anemia por deficiência de ferro" ou "anemia ferropriva" é o tipo de anemia mais comum. Calcula-se que mais de meio bilhão de pessoas no mundo apresentem deficiência de ferro, em especial nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento.

Na verdade a anemia é o ponto final da deficiência de ferro. O organismo dá prioridade ao fornecimento do ferro para a hemoglobina, que transporta o oxigênio para os tecidos. Portanto, a anemia aparecerá somente após a extinção dos estoques de ferro. Ou seja, antes de faltar ferro para a hemoglobina e você desenvolver a anemia propriamente dita, seu organismo vai deixar de fornecê-lo:

- ao seu cabelo, que pode começar a cair;

- à sua unha, que pode ficar quebradiça;

- às células da mucosa de sua língua, alterando o sabor dos alimentos;

- ao seu sistema neurológico, provocando alterações de atenção e de comportamento;

- ao seu sistema muscular, reduzindo sua capacidade de realizar esforços físicos que antes conseguia realizar; etc

A dieta pobre em ferro e o aumento da sua necessidade, devido ao crescimento, são causas importantes de deficiência de ferro, particularmente na infância. Gestantes também necessitam de mais ferro em sua dieta, pois fornecem o elemento para a formação do bebê. Mas, a anemia ferropriva no adulto, na maioria dos casos, não é uma doença e sim um sinal de outra doença, que está provocando perda de sangue, e, conseqüentemente, de ferro.

Causas importantes de perda de ferro no adulto são:

- perda menstrual excessiva: incluídas aqui não só as mulheres que apresentam hemorragias, mas também aquelas que apresentam perdas acima do normal por toda a vida.

- parasitismo: problema ainda muito importante em nosso meio.

- sangramento do trato gastro-intestinal: podendo ocorrer desde o esôfago até o ânus, podendo aparecer como sangue vivo nas fezes ou como sangue digerido (melena: fezes enegrecidas, do tipo “borra de café”).

Pacientes com deficiência de ferro podem desenvolver o que os médicos chamam de pica. A palavra pica deriva do nome em latim do pássaro pega (magpie, em inglês), notório pelo hábito de reunir objetos variados em seu ninho para saciar sua fome, não discriminando substâncias nutritivas de não nutritivas. Entre exemplos de pica podemos citar: o hábito de comer gelo, arroz cru e tijolo.

Quando há instalação lenta, os pacientes se acomodam à anemia, ou seja, o corpo se adapta e o paciente pode demorar a ter sintomas de anemia.  Isso provoca atraso na procura de assistência médica. Enquanto a anemia não for corrigida, seu coração vai trabalhando cada vez mais sobrecarregado, tentando compensar a baixa hemoglobina disponível para oxigenar adequadamente o organismo.

 

diagnóstico e tratamento da anemia ferropriva pode ser feito por médicos de várias especialidades. A hemoglobina estará abaixo de 12 g/dL para mulheres e abaixo de 13 g/dL para homens e o tamanho da hemácia (VCM) estará menor que o normal, na maioria dos casos. A ferritina é o exame mais específico para a identificação de deficiência de ferro em pacientes anêmicos. Entretanto, resultados de ferritina elevados podem ser observadas na presença de doenças inflamatórias e/ou doenças crônicas. Nestes casos, sugere-se   considerar a saturação de transferrina, dada pela razão entre o ferro sérico e a transferrina.

diagnóstico diferencial da anemia ferropriva deve ser feito, principalmente, com:

- Anemias de doença crônica: acompanham processos infecciosos, inflamatórios ou neoplásicos. A hemoglobina encontra-se pouco alterada (em geral, acima de 10g/dL), a ferritina é normal ou aumentada e a transferrina baixa.

- Beta talassemia menor: apresenta desde a infância anemia microcítica, com índice de anisocitose (RDW) normal.

Em ambos os casos, pode ocorrer deficiência de ferro concomitante.  A deficiência de ferro pode também estar mascarada por outras condições, como a anemia hemolítica e a deficiência de vitamina B12 ou folato.

Na maioria dos pacientes, a reposição de ferro não deve ser considerada o único tratamento. A causa da deficiência de ferro pode ser definida em até 85% dos casos e este deve ser o grande foco. O tratamento deve se basear na reposição de ferro medicinal, visto que apenas alterações na dieta não são suficientes para corrigir a anemia, principalmente se esta for importante. Quando o ferro utilizado é o sulfato ferroso, é importante ter o cuidado de ingerir o medicamento em jejum, trinta minutos antes das refeições. O leite diminui a absorção do ferro e a vitamina C aumenta esta absorção.

Os efeitos colaterais se dão principalmente no trato gastro-intestinal, principalmente náuseas, cólicas abdominais e diarréia, mas melhoram com o decorrer da terapêutica. A resposta à terapia deve ser monitorizada. A hemoglobina aumenta, em média, 1g /dl por semana. No entanto, um terço dos pacientes apresentam recaída, principalmente se a doença de base não foi tratada. Clinicamente, a pica regride em 1 semana, as alterações de pele em 1 a 2 semanas, de língua em 3 meses, da unha em 3 a 6 meses. No caso de falha de tratamento, deve-se descartar outros diagnósticos, falha do paciente (investigar se está ingerindo a medicação) e prescrição inadequada.

Quando há complicações da doença de base, perda de ferro contínua maior que a sua capacidade de absorção (por exemplo, mulheres que ainda não conseguiram controlar o sangramento menstrual intenso)  ou má absorção do ferro (exemplo: pacientes submetidas a gastrectomia redutora) pode-se necessitar de suplementação parenteral (intravenoso ou intramuscular). O tratamento com ferro parenteral é mais efetivo, mais caro e mais perigoso. Devido ao grande número de efeitos colaterais associado  ao uso intramuscular, a via endovenosa vem sendo cada vez mais utilizada, mas a infusão deve ser lenta. Se infusão rápida, podem ser observados dor, queimação e gosto metálico boca; além de hipotensão, dor de cabeça, urticária, náusea, reação anaflactóide, linfadenopatia, artralgia, mialgia e febre.  A eficácia da suplementação profilática de ferro está concentrada em dois importantes fatores: os efeitos colaterais gastrointestinais e a dificuldade de manter a motivação, por mais de dois ou três meses, em pacientes que não se consideram doentes.

Situações onde se recomenda suplementação sem anemia

- Em mulheres grávidas, as necessidades do segundo e terceiro trimestre não são resolvidas apenas com dieta, e a suplementação está indicada principalmente no segundo e terceiro trimestre, já que o enjôo matinal, no primeiro trimestre, pode comprometer a aderência. Este, aliás, é o principal obstáculo, que pode ser atribuído aos efeitos colaterais, mas que deve ser superado através da ênfase de sua importância para a saúde da mãe e do bebê.

- Na mulher que está amamentando a supressão da menstruação resulta em necessidades de ferro que se aproximam das mulheres que menstruam, não necessitando de suplementação.

- A OMS sugere programas de suplementação  para crianças em idade pré-escolar e escolar, ambos em cursos de 2-3 semanas várias vezes ao ano. No entanto a prevenção de anemia na infância inclui promoção de aleitamento materno e da introdução de alimentos, que aumentem a absorção do ferro ou que sejam “fortificados” com ferro. O aleitamento materno cobre as necessidades de ferro até os seis meses. Crianças de baixo peso devem receber suplementação a partir dos dois meses.

 Revisado em janeiro de 2017.

 

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