A febre durante o tratamento contra o câncer é um sinal de alerta que merece atenção imediata. Embora nem todo episódio febril represente uma complicação grave, é sempre um sinal que precisa de atenção especial.
Pacientes em quimioterapia podem apresentar diminuição das células de defesa do organismo, o que compromete a imunidade e aumenta o risco de infecções potencialmente graves. Por isso, reconhecer os sinais de alerta e saber como agir é fundamental para a segurança do paciente.
Neste artigo, explicamos por que a febre exige atenção especial durante a quimioterapia, quais sintomas devem ser observados e quando procurar atendimento médico.
Por que a quimioterapia pode aumentar o risco de infecções?
A quimioterapia utiliza medicamentos que atuam no combate às células do câncer. Entretanto, alguns desses medicamentos também afetam células saudáveis, incluindo as da medula óssea, responsável pela produção das células sanguíneas.
Entre elas estão os neutrófilos, um tipo de glóbulo branco essencial para a defesa do organismo contra bactérias e outros agentes infecciosos.
Quando a quantidade dessas células diminui, ocorre uma condição chamada neutropenia, que pode comprometer a capacidade do organismo de combater infecções.
A neutropenia pode surgir em diferentes momentos após a administração da quimioterapia, dependendo do medicamento utilizado, do esquema terapêutico e das características de cada paciente.
Em algumas situações, a infecção pode evoluir rapidamente, e os sinais habituais de inflamação podem ser discretos. Por isso, a ausência de outros sintomas, principalmente nas fases iniciais, não exclui a possibilidade de uma infecção potencialmente grave.
O que é neutropenia febril?
A neutropenia febril é uma emergência oncológica caracterizada pela associação entre febre e redução dos neutrófilos no sangue.
Na prática, a definição convencional de febre utilizada nesse contexto inclui temperatura igual ou superior a 38,3 °C em uma única aferição, ou igual ou superior a 38,0 °C mantida por pelo menos uma hora.
A neutropenia é geralmente diagnosticada através de um exame de hemograma com uma contagem absoluta de neutrófilos inferior a 500 células/mm³, ou com previsão de queda para esse nível nas próximas 48 horas.
Esses critérios auxiliam a equipe médica na avaliação e no diagnóstico. O paciente, entretanto, não deve esperar atingir esses limites para entrar em contato com a equipe oncológica.
A neutropenia febril pode estar associada a infecções bacterianas, fúngicas ou, em alguns casos, virais. Quando há suspeita de infecção com comprometimento sistêmico, existe risco de evolução para sepse ou disfunção orgânica.
Por esse motivo, a avaliação e o tratamento precoces são fundamentais.
O que é o nadir após a quimioterapia?
O nadir é o período em que a contagem de células sanguíneas, especialmente dos neutrófilos, atinge seu nível mais baixo após a quimioterapia. É o momento em que a redução de outras células do sangue, como as plaquetas, também pode ser mais acentuada.
Geralmente, ocorre entre 7 e 14 dias após o ciclo, mas esse intervalo varia conforme os medicamentos utilizados, o esquema terapêutico e as características individuais do paciente. Nessa fase, o risco de infecções pode aumentar significativamente.
Por isso, é fundamental seguir as orientações da equipe oncológica e procurar atendimento imediatamente diante de febre ou sinais de infecção, sem esperar o próximo exame de sangue ou a recuperação dos leucócitos.
Quais são os sinais de alerta?
Durante a quimioterapia, a febre não deve ser avaliada isoladamente. Outros sintomas também podem indicar uma infecção ou outra complicação que necessite de atendimento imediato.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Temperatura igual ou superior a 38 °C, ou o limite indicado pela equipe responsável.
- Calafrios intensos ou tremores.
- Fraqueza acentuada, prostração, mal-estar súbito ou piora importante do estado geral.
- Falta de ar ou respiração acelerada.
- Confusão mental, tontura, sonolência incomum ou desmaio.
- Tosse nova ou piora dos sintomas respiratórios.
- Dor, ardência ou outros sintomas urinários.
- Diarreia intensa, dor abdominal ou vômitos persistentes.
- Vermelhidão, dor, secreção ou inchaço em feridas, cateteres e outros locais de acesso venoso.
Atenção: falta de ar, confusão mental, desmaio ou deterioração rápida do estado geral exigem atendimento imediato em serviço de pronto-socorro.
Além disso, pacientes com neutropenia podem apresentar infecção grave sem desenvolver febre evidente. A ausência de febre, ou mesmo uma temperatura abaixo do normal, não deve ser considerada tranquilizadora quando há calafrios, prostração ou outros sinais de deterioração clínica.
O que fazer se a febre aparecer durante a quimioterapia?
A conduta mais segura é agir prontamente, sem tentar controlar o quadro em casa antes de procurar orientação.
1. Afira a temperatura corporal
Utilize um termômetro e informe à equipe o valor medido, o horário e, se possível, o método de aferição. Não espere uma segunda medição se já houver sinais de gravidade.
2. Entre em contato imediatamente com a equipe oncológica.
Busque contato com o seu médico (oncologista ou hematologista) ou enfermeiro navegador. Informe a temperatura, os sintomas associados, a data da última quimioterapia e os medicamentos em uso. Diante de sinais de gravidade, não espere o retorno da equipe: procure o serviço de emergência local.
O INGOH e o Hospital Jacob Facuri se uniram para criar um Cancer Center em Goiás, com o propósito de oferecer uma jornada oncológica completa, desde o diagnóstico até as diferentes etapas do tratamento.
3. Não espere a febre baixar espontaneamente.
Mesmo que a temperatura diminua, a possibilidade de uma infecção relevante não está necessariamente afastada. O uso de antitérmico deve acontecer conforme orientado pela equipe de cuidados. Busque atendimento para avaliação e diagnóstico.
4. Não tome medicamentos por conta própria para adiar a avaliação.
Não inicie antibióticos sem o correto diagnóstico ou orientação médica. A escolha do medicamento depende da avaliação clínica e das características do possível foco de infecção.
5. Informe que está em tratamento oncológico.
Ao chegar ao serviço de emergência, comunique que está realizando quimioterapia e informe a data do último ciclo. Se possível, leve a identificação do esquema terapêutico, a lista de medicamentos e os contatos da equipe responsável.
Essa informação ajuda a equipe assistencial a reconhecer rapidamente o risco de neutropenia febril e a priorizar a avaliação.
Como é feita a avaliação médica?
Diante da suspeita de neutropenia febril, a equipe assistencial realiza avaliação clínica imediata, considerando os sintomas, os sinais vitais, o tratamento oncológico e os fatores de risco individuais.
A investigação geralmente inclui:
- Hemograma completo com contagem diferencial: permite avaliar a quantidade de neutrófilos e outras células sanguíneas.
- Exames de culturas, quando indicados: podem incluir hemoculturas, uroculturas e amostras de outros locais suspeitos de infecção.
- Exames laboratoriais complementares: selecionados conforme o quadro clínico e a suspeita diagnóstica.
- Exames de imagem: solicitados quando necessários para investigar possíveis focos infecciosos.
Nem todos os pacientes precisarão dos mesmos exames. A investigação deve ser direcionada pelos achados clínicos e pela avaliação médica.
Quando há suspeita de neutropenia febril, o tratamento antibiótico empírico é frequentemente iniciado com urgência, após a coleta dos exames de cultura, quando isso é possível sem atrasar o tratamento.
A escolha do antibiótico depende de fatores como gravidade clínica, risco de microrganismos resistentes, histórico de infecções, alergias e protocolos institucionais.
A necessidade de internação é definida de acordo com a avaliação médica e a estratificação de risco (avaliação da chance de complicações em cada caso). Pacientes de maior risco geralmente necessitam de tratamento e vigilância hospitalar, enquanto alguns pacientes cuidadosamente selecionados podem ser tratados em regime ambulatorial, desde que cumpram critérios de segurança e tenham acompanhamento adequado.
É possível prevenir a neutropenia febril?
Nem todos os episódios de neutropenia febril podem ser evitados. Entretanto, algumas medidas ajudam a reduzir os riscos e permitem identificar complicações precocemente.
Medidas importantes durante o tratamento
- Compareça às consultas e realize os exames solicitados. O acompanhamento permite monitorar as células sanguíneas e avaliar a necessidade de ajustes no planejamento terapêutico.
- Mantenha a higiene das mãos. Lavar as mãos regularmente, especialmente antes das refeições e após utilizar o banheiro, ajuda a reduzir a transmissão de agentes infecciosos.
- Tenha cuidado com os alimentos. Higienize adequadamente frutas, verduras e utensílios, mantenha os alimentos em condições seguras de conservação e evite alimentos crus ou mal cozidos de maior risco, conforme as orientações da equipe assistencial.
- Evite contato próximo com pessoas que apresentem infecções transmissíveis, sempre que possível, e mantenha a vacinação atualizada de acordo com a orientação médica. Algumas vacinas, especialmente as de microrganismos vivos, podem ser contraindicadas em determinadas situações de imunossupressão.
- Siga as orientações sobre cateteres e dispositivos vasculares. A higiene e os cuidados adequados com esses dispositivos são importantes para prevenir infecções relacionadas à assistência.
Quando podem ser necessários medicamentos preventivos?
Em determinados esquemas de quimioterapia, o risco de neutropenia febril pode justificar o uso profilático de fatores estimuladores de colônias de granulócitos, conhecidos como G-CSF. Injeções como o filgrastim, pegfilgrastim e lipegfilgrastim podem ser indicadas em alguns protocolos de tratamento oncológico, conforme a orientação de seu médico.
Esses medicamentos estimulam a produção de neutrófilos e podem reduzir o risco de neutropenia febril em pacientes selecionados.
A indicação depende do risco associado ao esquema de tratamento, das características clínicas do paciente e de fatores adicionais, como idade, comorbidades e histórico de complicações em ciclos anteriores.
Antibióticos preventivos também podem ser considerados em situações específicas, mas não são necessários para todos os pacientes em quimioterapia.
A decisão sobre a necessidade faz parte do plano terapêutico que será definido pela equipe médica de forma individualizada.
Toda febre durante a quimioterapia significa uma infecção grave?
Não. A febre pode ter diferentes causas, incluindo infecções, reações a medicamentos, febre tumoral e outras condições clínicas.
A neutropenia febril é uma emergência oncológica porque pode evoluir rapidamente e exige avaliação para identificar a causa, estimar o risco e iniciar o tratamento adequado.
A orientação fundamental é simples: durante a quimioterapia, a febre deve ser tratada como um sinal de alerta até que uma avaliação adequada permita esclarecer sua causa.
O cuidado oportuno faz diferença
O reconhecimento precoce da febre e de outros sinais de infecção é parte essencial da segurança do tratamento oncológico.
Saber quando procurar atendimento, manter contato com a equipe assistencial e seguir as orientações individualizadas ajuda a reduzir atrasos no diagnóstico e no tratamento de complicações potencialmente graves.
No INGOH (Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia), a assistência oncológica envolve acompanhamento especializado e orientação ao paciente ao longo de sua jornada de tratamento.
Se você está em quimioterapia e apresenta febre ou sinais de possível infecção, entre em contato imediatamente com sua equipe oncológica. Se houver sinais de gravidade ou se não conseguir contato prontamente, procure atendimento de emergência.
Conteúdo redigido pelo INGOH com a assessoria de Dr. Paulo Razia, Diretor Médico do INGOH (CRM-GO 28.422), pós-graduado em Cuidados Paliativos pelo Albert Einstein; MBA em Gestão em Saúde pelo A. C. Camargo Cancer Center.




