Como o médico avalia uma anemia?

Como o médico avalia uma anemia?

Como o médico avalia uma anemia?- A consulta médica de um paciente com anemia é um momento crucial para descobrir o que está acontecendo com o corpo e encontrar uma solução. Durante essa avaliação, o médico irá se dedicar completamente a entender a história médica do paciente, incluindo seus sintomas atuais, hábitos de vida e passado médico, buscando sinais da anemia propriamente dita e sinais da causa da anemia.

O exame físico será uma parte importante desse processo, pois o médico vai checar os batimentos cardíacos e pressão arterial, vai avaliar a cor das mucosas, o aspecto de pele e unhas, além de verificar se o baço e os linfonodos estão no tamanho certo.

Outro passo importante é revisar os exames realizados anteriormente para ter uma visão completa da situação. A maioria dos pacientes com anemia vem encaminhados de outros médicos e já fizeram vários exames. Este passo ajuda a agilizar o processo de diagnóstico e evita refazer exames já realizados. Obviamente, alguns poderão precisar ser repetidos.

Como os médicos avaliam uma anemia?

Os exames de sangue serão solicitados para confirmar a presença de anemia e avaliar se há destruição de hemácias (observado nos testes de hemólise), se a medula óssea está produzindo células vermelhas como deveria (observado nos reticulócitos)  e se há níveis adequados de ferro e vitamina B12. Outras avaliações importantes incluem a função renal, hepática e tireoidiana, a verificação de proteínas anômalas (eletroforese de proteínas), testes para infecções, provas reumatológicas e inflamação.

Se necessário, o médico pode pedir outros exames para descobrir a causa da anemia, como exames de sangue mais específicos (eletroforese de hemoglobina, por exemplo), endoscopias (como a endoscopia digestiva alta e colonoscopia), exames de imagem, avaliação da medula óssea, além de exames moleculares e genéticos. Tudo isso com o objetivo de encontrar a solução ideal e cuidar da saúde do paciente.

Se você tem os sintomas ou já sabe que tem anemia, converse com seu médico sobre o assunto. Cada caso tem suas particularidades e só seu médico sabe todos os detalhes. Dessa forma,  será possível decidir qual tratamento é o mais adequado para você. Em alguns casos, vai precisar de  médico especialista em anemia, que  se chama hematologista.

Como o médico avalia uma anemia?

Quer ler mais sobre o assunto? Acesse os textos abaixo.

Entendendo os sintomas da anemia – INGOH

O que o hemograma completo avalia? – INGOH

Anemia por deficiência de ferro – INGOH

Doença Falciforme – INGOH

Síndrome Mielodisplásica (SMD) – parece uma anemia simples, mas não é! – INGOH

Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose. – INGOH

704 mil novos casos de câncer de mama para 2023

704 mil novos casos de câncer de mama para 2023

INCA lança estimativa anual para triênio 2023-2025. Qualidade de vida e hábitos diários influenciam nos diagnósticos

704 mil novos casos de câncer de mama para 2023 – O Ministério da Saúde, por meio do Instituto Nacional de Câncer (INCA), divulga estatísticas sobre o cenário neoplásico do país com objetivo de organizar políticas públicas e aprimorar a assistência à população. Aproximadamente 20 neoplasias são contabilizadas e, entre elas, o câncer de pele não melanoma segue como o principal diagnóstico, em Goiás, com quase 9.500 diagnósticos por ano. Doença que é seguida pelo câncer de próstata (2.500 casos) e câncer de mama (1970 casos).

Em território nacional, há a previsão de novos 704 mil casos de câncer; desses, 31% correspondem ao câncer de pele não melanoma. Excluindo esses casos, o primeiro lugar fica com a neoplasia mamária feminina (10,5% dos diagnósticos) e o segundo com o câncer de próstata (10%).

O aumento dos diagnósticos pode ser associado à maior expectativa de vida da população mundial, bem como a piora da qualidade de vida que a população vem enfrentando. Maior grau de sedentarismo e de consumo dos industrializados influenciam diretamente na saúde do ser humano. Para se ter uma ideia, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) ressalta que entre 90 e 95% dos diagnósticos de câncer de mama estão associados a fatores genéticos, enquanto 5 a 10% são ligados à genética.

Portanto, zele de suas escolhas e mantenha suas consultas de rotina em dia, bem como exames básicos. Aproveite, então, que ainda estamos no começo do ano para renovar seu check-up. Aqui no INGOH, contamos com especialidades médicas, laboratório próprio e parceiros terceirizados de exame de imagem.

Você pode clicar aqui e conferir a divulgação completa.

Um simples gesto e um grande resultado: doação de sangue salva vidas

Um simples gesto e um grande resultado: doação de sangue salva vidas

Um simples gesto e um grande resultado: doação de sangue salva vidas

Uma bolsa é capaz de ajudar até quatro pacientes. INGOH reforça importância da campanha e convoca doadores

Um simples gesto e um grande resultado: doação de sangue salva vidas – É uma atitude rápida que transforma a vida de quem precisa. A doação de sangue é um dos exemplos de solidariedade que faz a diferença no tratamento de milhares de pessoas. Seja após uma cirurgia, por um problema de saúde ou por um acidente, a transfusão de sangue não é feita sozinha. O início de todo o processo vem da boa vontade de cada doador em se colocar à disposição para ajudar.

O banco de sangue do Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia (INGOH) conta com a colaboração de centenas de voluntários para reforçar os estoques. “O Carnaval está se aproximando e costuma ser uma época crítica, pois a quantidade de acidentes automotivos, por exemplo, tende a aumentar e, consequentemente, os pedidos por mais bolsas também. Por isso, é importante que estejamos prontos”, alerta a gerente do banco de sangue, Ana Paula Parente. Durante uma doação, são retirados até 500 ml de sangue de cada doador. Uma bolsa pode ser usada em até quatros pessoas.

Unidades atendidas

O Banco de Sangue do INGOH tem uma expertise de mais de 50 anos no mercado. Nesse tempo, possibilitou que muitos atendimentos fossem realizados e, consequentemente, influenciou positivamente a vida de milhares de pessoas. Em Goiás, além de unidades particulares, o INGOH atende a unidades públicas também, da rede estadual e municipal. A exemplo, citamos o Hospital Estadual da Criança e do Adolescente e o Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia, na capital e região metropolitana.

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Covid longa: sequelas da doença resistem ao fim do tratamento

Covid longa

Sequelas da doença resistem ao fim do tratamento

 

covid longa - sequelas do tratamentoCovid longa: sequelas da doença resistem ao fim do tratamento – Uma extensa lista de sintomas pode acompanhar o paciente diagnosticado com Covid-19. Para falar sobre isso, a endocrinologista Marília Zanier, que compõe o corpo do Instituto Goiano de Oncologia e Hematologia (INGOH), concedeu entrevista ao jornal O Popular. A médica ressaltou que o descontrole hormonal está entre os principais sintomas enfrentados por pessoas que convivem com a popular Covid Longa.

Tais circunstâncias são acompanhadas por pesquisas clínicas e, ao periódico, a médica revelou que “Os principais problemas são relacionados à tireoide e diabetes. Em um dos estudos, a Covid foi associada a um risco de 64% maior do paciente ter diabetes”. Ela compartilhou ter pacientes jovens que desenvolveram diabetes tipo 1 depois de quadros mais graves da doença causada pelo vírus SARS-CoV-2.

Outra alteração abordada foi a descompensação da glândula tireoide, responsável pela produção de hormônios. “O vírus consegue entrar na glândula e pode acontecer uma tireoidite, que é a inflamação que pode causar uma tireoide subaguda, como caxumba e rubéola”, explicou Zanier ao jornal O Popular.

Tais quadros podem ser controlados, desde que acompanhados por médicos especialistas. É essencial, portanto, que você se atente aos sintomas apresentados, mesmo após o fim do tratamento. Em caso de dúvidas, procure um médico. Aqui no INGOH, temos excelentes profissionais, de diversas especialidades, sempre prontos a lhe ajudar! Conte conosco e, para agendamento de consultas, nos acione número (62) 3226-0200, que também é WhatsApp.

Para acessar a reportagem completa, clique aqui.

Câncer de Glória Maria: Entenda o quadro evolutivo da jornalista e saiba da importância da prevenção

Câncer de Glória Maria: Entenda o quadro evolutivo da jornalista e saiba da importância da prevenção

Perdemos uma das jornalistas mais importantes da TV brasileira. Entenda melhor o quadro clínico evolutivo de câncer que culminou em sua morte.

Câncer de Glória Maria: Entenda o quadro evolutivo da jornalista e saiba da importância da prevenção – Uma perda lastimável para o jornalismo brasileiro, a morte de Glória Maria, aos 73 anos, mexeu com o país na última quinta-feira, 02. no Rio de Janeiro. Acometida pela evolução de um quadro clínico de câncer, a jornalista teve trajetória admirável e inquestionável por todos que a acompanhavam na TV.

Quem foi Glória Maria

Glória Maria é jornalista da TV Globo desde 1971, quando então ficou conhecida nas telinhas pelo estilo jornalístico pioneiro, inovador e desafiador. A repórter já fez reportagem em mais de 100 países, foi a 1ª a entrar ao vivo e em cores no Jornal Nacional e apresentou o programa Fantástico por 10 anos. Em 2010 passou a integrar a equipe do Globo Repórter.

Retrato de Glória Maria Léo Aversa/Agência O Globo

“Eu sou uma pessoa movida pela curiosidade e pelo susto. Se eu parar para pensar racionalmente, não faço nada. Tenho que perder a racionalidade para ir, deixar a curiosidade e o medo me levarem, que aí eu faço qualquer coisa”.

Era assim que Glória se definia. Aos 73 anos, viveu uma bela trajetória que quebrou barreiras e preconceitos como mulher negra e deixou duas filhas: Maria, de 15 anos, e Laura, de 14 anos, que adotou em 2009.

O quadro clínico do câncer de Glória Maria

Em 2019, Glória foi diagnosticada com câncer de pulmão. A doença respondeu bem ao tratamento inicial, realizado com imunoterapia. Posteriormente, a jornalista evoluiu com metástases cerebrais, foi tratada então com cirurgia, que teve êxito.

Porém, nos últimos dias, o tratamento deixou de fazer efeito. Isso geralmente ocorre caracterizando que a doença desenvolveu resistência ao tratamento. A Dra. Wanessa Apolinário, médica especialista do INGOH, explica:

Os tumores de pulmão são os principais causadores de morte por câncer no mundo, com mais de 1,7 milhão de óbitos por ano, aproximadamente. São fatores de risco para este câncer: tabagismo (ativo e passivo), poluição do ar, história familiar e contato com elementos e substâncias químicas.

 É muito comum que essa condição seja descoberta por acaso, através de exames periódicos ou pela ocorrência de algum sintoma, por isso a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

A importância da prevenção

O câncer de pulmão é uma doença silenciosa e que pode acometer qualquer pessoa, porém existem hábitos que são fatores de risco para desenvolvimento de câncer. Por isso, evitar o tabagismo, tanto ativo quanto passivo (quando pessoas fumam perto de você), é primordial.

Sabemos que episódios como o de Glória Maria assustam, mas existe prevenção e tratamento para a maioria dos casos. Manter as consultas e exames em dia é fundamental para identificar problemas ainda no início, de forma, que o tratamento seja mais efetivo e menos tóxico.

Como dito, o câncer de pulmão pode ser silencioso, ou seja, o paciente pode não sentir nada nas fases iniciais. Então, recomenda-se para fumantes ativos ou passivos, que mantenham consultas regulares com um oncologista. Converse com seu médico sobre a necessidade de realização de tomografias de rastreamento. E não se esqueça de cuidar da sua saúde e bem-estar, procurando sempre manter hábitos saudáveis.

Nossas sinceras homenagens

A uma das maiores jornalistas e repórteres da TV brasileira, ficam nossas sinceras homenagens e aos familiares e fãs, nossos sinceros sentimentos e nosso notável reconhecimento à bela trajetória de um grande e inquestionável ícone do jornalismo.

Câncer de Glória Maria: Entenda o quadro evolutivo da jornalista e saiba da importância da prevenção

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IPASGO: estamos atendendo normalmente

IPASGO: estamos atendendo normalmente

IPASGO: estamos atendendo normalmente – É com muita satisfação que informamos a você, usuário do IPASGO, que seu atendimento no INGOH está plenamente normalizado.

A excelência sempre foi um dos nossos diferenciais e poder recebê-los é uma honra para nós. Estamos sempre de portas abertas para atendê-los.

Há 55 anos, o INGOH presta serviços de saúde pautados pela qualidade, humanidade e excelência no atendimento. Por isso, conquistou a credibilidade que tem junto à população de Goiás e a satisfação de milhares de clientes.

E cuidar de você é nossa maior missão.

IPASGO: estamos atendendo normalmente

Veja também: Ingoh é arte por toda parte

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Linfoma Folicular (LF): um tipo indolente de linfoma não-Hodgkin de células B.

Linfoma Folicular (LF): um tipo indolente de linfoma não-Hodgkin de células B.

Linfoma Folicular

Linfoma Folicular (LF): um tipo indolente de linfoma não-Hodgkin de células B.

Linfoma Folicular (LF): um tipo indolente de linfoma não-Hodgkin de células B. – Quem está mais atento ao assunto linfoma sabe que este é o nome de um grupo de cânceres (neoplasias malignas) que afetam os linfócitos (um dos tipos de células branca do sangue) e que existem mais de 100 subtipos, cada um deles se comportando de forma peculiar. Neste texto iremos abordar o tema Linfoma Folicular, mas se quiser ler sobre linfomas de uma forma mais geral, clique aqui 1, e se quiser entender melhor a classificação de linfomas e leucemias linfoides, clique aqui 2.

Como surge o linfoma folicular

Os linfócitos são células de defesa do organismo que compõem as chamadas células brancas do sangue. Nascem na medula óssea (tutano no osso), circulam pelo sangue, mas estão predominantemente armazenados nos gânglios linfáticos (linfonodos). Sua função mais importante é o combate às infecções, sendo considerados os generais que organizam as nossas tropas de choque. 

Dentro do linfonodo, os linfócitos se colocam em posições específicas de acordo com sua função. Assim, microscopicamente, os linfócitos B se dispõem dentro de folículos e os linfócitos T se dispõem ao redor destes folículos, todos dentro da zona cortical dos linfonodos. Dentro dos folículos, os linfócitos B entram em contato com o antígeno, geralmente proveniente de um microorganismo e que é o estimulante da resposta imune. Os linfócitos B são ativados pelo antígeno e formam uma região chamada de centro germinativo. No centro germinativo, o linfócito B muda de nome para centroblasto e, depois de sofrer alterações moleculares para melhorar a afinidade ao antígeno, há proliferação das células com melhor afinidade. A seguir, se transformam em centrócitos, que sofrem algumas modificações como a mudança de classe da imunoglobulina. O linfoma folicular surge no centro germinativo e é predominantemente formado por centrócitos. A quantidade de centroblastos por campo ajuda o patologista a classificar o linfoma folicular em graus (1, 2 e 3). Recentemente (2022), a OMS modificou a classificação dos linfomas e aqueles anteriormente chamados de grau 3B agora devem ser classificados como linfoma folicular de grandes células B (FLBL). Ou seja, segundo a nova classificação, agora temos os seguintes tipos histológicos de LF:

  • Neoplasia folicular de células B in situ (ISFN)
  • Linfoma Folicular tipo pediátrico 
  • Linfoma Folicular tipo duodenal
  • Linfoma Folicular clássico (cLF) 
  • Linfoma Folicular de grandes células B (FLBL) 
  • Linfoma Folicular com características incomuns (uFL) 
Figura 1: Estrutura esquemática de um linfonodo normal e um linfonodo com Linfoma Folicular.

Quando uma pessoa tem linfoma folicular, os linfócitos do centro germinativo se tornam anormais, crescem fora de controle e podem se espalhar para diferentes partes do corpo. A célula maligna linfoide começa a produzir, nos linfonodos, cópias idênticas, também chamadas de clones e frequentemente causam o aumento desses linfonodos, que podem ser encontrados no pescoço, nas axilas, na virilha e, eventualmente, em outras partes do corpo. 

Por volta de 1900, os linfomas foram classificados como tendo as células de Reed-Sternberg (RS), chamados de Doença de Hodgkin, ou aqueles que não tinham a célula de RS, chamados de Linfomas Não-Hodgkin. Mais de um século depois, ainda classificamos os linfomas dessa forma, mas hoje sabemos que os linfomas não Hodgkin não são apenas uma doença e não devem ser agrupados, já que são muito heterogêneos tanto na sua apresentação clínica quanto no seu tratamento. O Linfoma Folicular representa um dos tipos de Linfoma Não Hodgkin.

Epidemiologia

O Linfoma Folicular corresponde a cerca de 20% de todos os linfomas. Geralmente compromete mais idosos e a idade mediana se encontra na sexta década de vida (50-59 anos). Ac relação homem:mulher é de 1:1,7. É 2-3 vezes mais comum em caucasianos do que em afrodescendentes.  A exposição a agrotóxicos está associada a maior risco.

Quadro Clínico (quais os sinais da doença)

Este linfoma geralmente cresce lentamente, e por isso é chamado de indolente. A maioria das pessoas com linfoma folicular nota, à princípio, um ou mais linfonodos aumentados de tamanho. Esses linfonodos inchados, chamados popularmente de ínguas, geralmente estão no pescoço, na axila e na virilha, ao que chamamos de linfadenopatias periféricas. Em geral, pode-se sentir a tumoração sob a pele, mas não são dolorosas e vão crescendo lentamente no decorrer de muitos meses ou até anos. Baço, medula óssea, sangue periférico e anel de Waldeyer (região de amígdalas) também podem ser comprometidas. Apresentações extranodais (fora dos linfonodos) são incomuns, sendo o trato gastrointestinal, tecidos moles, mama e anexo ocular os locais mais comuns. Eventualmente pode se transformar em um tipo que cresce rapidamente, ou seja, em um linfoma agressivo.

A maioria dos pacientes pode não apresentar nenhum outro sintoma por muitos anos. É importante ficar atento ao que chamamos de “sintomas B”: febre, perda de peso, suores noturnos que encharcam as roupas e fraqueza. Aumento e regressão da doença sem terapia é comum, ou seja, esta doença segue um curso clínico recidivante crônico.

Do ponto de vista molecular

A grande maioria dos LF (85%) tem, pelo menos em parte, um padrão de crescimento folicular, são compostos por centrócitos e centroblastos e abrigam a translocação t(14;18)(q32;q21) associada ao gene de fusão IGH:BCL2. Estes são agora denominados LF clássico (cLF) e devem ser separados dos demais.

Diagnóstico

Para confirmar o diagnóstico será necessária uma biópsia do linfonodo. Essa biópsia necessita ser analisada por um patologista especialista na área de neoplasias hematológicas (hemato patologista), já que o linfonodo pode ser parecido com situações reacionais quando analisado ao microscópio. O hematologista e o patologista precisam trabalhar juntos! O exame de imunohistoquímica ajuda muito nesses casos e pode ser realizado na mesma biópsia. Algumas vezes, novas biópsias precisam ser solicitadas, se a primeira não esclarecer a questão.  

Estadiamento

Além de uma história clínica e exame físico bem executados, a avaliação pré-tratamento inclui estudos laboratoriais, que incluem  hemograma completo, análise de função hepática e renal, além de eletrólitos, desidrogenase lática (DHL), ácido úrico e sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV. PET-TC e biópsia de medula óssea também são necessários. Podem ser solicitados outros estudos para sintomas específicos. Esses exames servem para estabelecer o quanto o linfoma está comprometendo o corpo e compõem o que chamamos de estadiamento, além de ajudarem no cáculo do escore prognóstico.

O estadiamento, desde 2014, é determinado usando a classificação de Lugano, uma modificação do sistema de estadiamento de Ann Arbor. A avaliação do envolvimento da medula óssea deve ser realizada com biópsia da medula óssea. A designação de um caso como A ou B (assintomático ou sintomático) não é mais necessária para os subtipos de linfoma não Hodgkin, segundo o sistema de Lugano. 

Tabela 1: Estadiamento conforme classificação ANN ARBOR (1971).

Tabela 2: Estadiamento de LUGANO (2014).

Tratamento 

Muitas vezes, o linfoma folicular não é tratado imediatamente, caso não esteja causando nenhum sintoma. Mas será necessário ser observado de perto, com exame físico clínico, exames de sangue e de imagem, até que o tratamento seja necessário. Os tratamentos disponíveis podem ajudar a reduzir os sintomas, mas geralmente não curam este tipo de câncer. A indicação dependerá de alguns fatores como: os sintomas apresentados, a localização dos linfonodos comprometidos pelo linfoma, a idade e outras condições médicas (doenças cardíacas, renais, diabetes, dentre outras). Pode incluir quimioterapia (medicamentos que matam as células cancerosas ou impedem que elas cresçam), anticorpos (proteínas criadas em um laboratório que matam as células cancerígenas, visando partes específicas dessas células, e usando alguns sistemas de defesa do seu corpo) e radioterapia. 

Alguns doentes em estadio inicial (I ou II) podem ser tratados apenas com radioterapia ou com radiação associada a quimioterapia. A doença em estágio avançado (estadio III e IV) e alguns pacientes com estadio II serão tratados se apresentarem sintomas ou se algum critério de doença em crescimento estiver presente. Muitas opções de tratamento estão disponíveis e a escolha depende da preferência do paciente e da necessidade de agir mais rapidamente (se a função de algum órgão estiver ameaçada, por exemplo). Pessoas com doença avançada geralmente são tratadas primeiro com quimioterapia associada a um anticorpo anti-CD20 (quimioimunoterapia). Os anticorpos mais comumente utilizados são o rituximabe e o obinutuzumabe, que atacam seletivamente as células tumorais do linfoma folicular. Para pessoas idosas que apresentam sintomas, o tratamento com apenas rituximabe pode ser considerado. 

Se o paciente com linfoma folicular apresentar redução do tamanho das massas, após serem tratados com quimioimunoterapia, pode-se optar por aplicar os anticorpos anti-C20 por mais tempo (geralmente 2 anos), o que é chamado de “terapia de manutenção”. A terapia de manutenção adia a progressão do linfoma. Medicamentos recentemente desenvolvidos para o tratamento de linfoma folicular (“novos agentes orais”), transplante de células-tronco (medula óssea) e radioimunoterapia são reservados para pacientes com doença recidivante.

Boa parte dos pacientes precisa de um estudo inicial da fração de ejeção cardíaca ( por ecocardiograma) quando há necessidade de receber medicamentos do grupo das antraciclinas. Antes do início do tratamento, homens e mulheres com potencial para gerar filhos devem receber aconselhamento sobre o eventual efeito do tratamento em sua fertilidade e devem ser aconselhados a considerar medidas de preservação da fertilidade. 

O prognóstico do FL está intimamente relacionado com a extensão da doença no momento do diagnóstico. O FLIPI é um escore que é resultado de uma modificação do Índice Prognóstico Internacional (IPI) e é útil para prever como a doença vai evoluir. O FLIPI usa cinco preditores independentes de sobrevida: idade > 60 anos, concentração de hemoglobina < 12 g/dL, DHL sérica elevada, estadiamento de Ann Arbor III/IV (doença disseminada no sistema Lugano) e mais do que 4 áreas nodais envolvidas. A presença de 0-1 fatores define baixo risco, 2 fatores define risco intermediário e se houver 3-5 desses fatores adversos o paciente é considerado de alto risco. A maioria dos estudos publicados mostra um curso clínico mais agressivo para LFs classificados como grau 3 (agora classificados numa categoria separada), mas o uso de esquemas de tratamento oncológico diferenciados podem melhorar este curso. Com as terapias atuais, a sobrevida mediana para pacientes com LF de graus 1 até grau 3A é maior que 12 anos. Podem ocorrer recaídas ao longo do tempo, o que reforça a necessidade de manter o acompanhamento após o tratamento.

O linfoma folicular é uma doença indolente. Apesar de todos os esforços, a terapia não é curativa. Alguns pacientes irão atingir remissão e outros irão necessitar de retratamento de tempos em tempos. Estes pacientes deveriam ser sempre tratados por um especialista com experiência neste tipo de linfoma, para garantir uma boa qualidade de vida, com poucos sintomas associados à doença e/ou ao tratamento. 

Se você foi diagnosticado com este tipo de linfoma, fale com seu médico sobre qualquer dúvida ou preocupação que tenha e tente entender suas opções de tratamento. Cada caso tem suas particularidades e só seu médico sabe todos os detalhes. Dessa forma,  será possível decidir qual tratamento é o mais adequado para você. 

Fique atento que o que foi dito aqui só se aplica ao linfoma folicular! Outros tipos de linfoma têm comportamentos diferentes e necessitam de tratamento específico.

Linfoma Folicular (LF): um tipo indolente de linfoma não-Hodgkin de células B.

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Texto elaborado e revisado por
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos  
Médica  do corpo clínico do INGOH
Especialista em Hematologia – Hemoterapia
CRM-GO 12.406/RQE 22.965.
Texto revisado em Setembro de 2022.
É permitida a reprodução parcial 
ou total desta obra, desde que 
citada a fonte e que não seja para 
venda ou qualquer fim comercial.

Referências:
  • ALAGGIO R , AMADOR, C., ANAGNOSTOPOULOS, I. ET AL. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia 2022; 36, 1720–1748. https://doi.org/10.1038/s41375-022-01620-2.
  • CHERSON BD ET AL. Recommendations for Initial Evaluation, Staging, and Response Assessment of Hodgkin and Non-Hodgkin Lymphoma: The Lugano Classification. Clin Oncol 2014; 32:3059-3067.
  • FIGUEIREDO MS, KERBAUY J, LOURENÇO DM. Hematologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar. UNIFESP-EPM. Manole, 2011.
  • FORONES NM ET AL. Oncologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP-EPM. Manole, 2005; capítulo 44, 321-336. (Classificação clínica).
  • FREEDMAN AS, FRIEDBERG JW. Treatment of relapsed or refractory mantle cell lymphoma. In: UpToDate, LISTER A & ROSMARIM A(Ed), UpToDate, Waltham, MA. (Visitado em junho de 2022).
  • HOFFBRAND AV & MOSS PAH. Fundamentos em Hematologia. 6. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • HOFFMAN et al, Hematology, basic principles and practice, 4. Edição.
  • LONGO, DJ. Harrison’s Hematology and Oncology, 2ed. 
  • SWERDLOW SH et al. WHO classification of Tumors of Haematopoietic and Lymphoid Tissue: IARC: Lyon 2017.
  • ZAGO MA, FALCAO RP, PASQUINI R. Tratado de Hematologia. Atheneu, 2014.

Síndrome Mielodisplásica (SMD) – parece uma anemia simples, mas não é!

Síndrome Mielodisplásica (SMD) - parece uma anemia simples, mas não é!

Síndrome Mielodisplásica (SMD) – parece uma anemia simples, mas não é! – A síndrome mielodisplásica é uma forma de anemia crônica que aparece com ou sem outras alterações nas células do sangue.

 

Para manter uma quantidade estável de células no sangue, é necessário que este seja produzido continuamente pela stem cell (ou célula tronco), que origina todas as células do sangue e se encontra na medula vermelha dos ossos, também chamado de tutano. As stem cell são células pluripotentes que vão se proliferando e diferenciando até que se tornam células maduras. Em um determinado ponto da diferenciação já conseguimos dizer qual célula será originada. Podemos visualizar, por exemplo, linfoblastos e linfócitos. Chamamos estes últimos de linhagem linfoide. Todas as outras células da medula (que não são da série linfoide) são de linhagem mieloide. Assim, os eritroblastos originam hemácias, os megacariócitos originam plaquetas, os mieloblastos originam os neutrófilos, eosinófilos, basófilos e os monoblastos dão origem aos monócitos.

Nas Síndromes Mielodisplásicas (SMD), uma doença da série mieloide, a medula óssea não funciona normalmente, podendo apresentar células anormais e não produzir células sanguíneas maduras normais e/ou em quantidade suficiente. Em outras palavras, pode a stem cell pode proliferar, mas a diferenciação é anormal e a produção de células maduras não é eficiente, o que é percebido no hemograma como uma redução nas células do sangue, que pode afetar uma ou mais séries (vermelha, branca e/ou plaquetas). É considerada uma doença que apresenta potencial relativo de se transformar em Leucemia Aguda nos anos subsequentes.

Algumas pessoas com SMD não têm sintomas. Quando têm, esses sintomas podem ser tontura, fraqueza ou cansaço, dificuldade para respirar e até dificuldade de pensar claramente, que são sinais de anemia. Podem apresentar manchas roxas ou sangrar mais facilmente, que são sinais de plaquetas baixas. Outra situação que chama a atenção para a necessidade de avaliação especializada é quando se tem infecções de repetição (secundário à redução das células de defesa, chamadas de neutrófilos), principalmente quando há necessidade de uso de antibiótico mais do que três vezes ao ano.

Os principais exames para avaliar se existe a SMD são o hemograma (que avalia as células no sangue periférico: hemácias, leucócitos e plaquetas), o mielograma (que avalia as células da medula óssea) e o exame de citogenética (que avalia a presença de alterações nos cromossomos, onde se encontra nosso material genético). Recentemente alguns painéis moleculares (NGS mieloide) vêm sendo disponibilizados e são úteis quando os exames acima não foram conclusivos. Servem também para estabelecer o risco da doença. Os exames de biópsia de medula (histopatológico) e de imunofenotipagem, além do ferro medular também são muito úteis em determinadas situações tanto para diagnóstico quanto para classificação da SMD. É importante saber quantas e quais são as citopenias (quantas e qual a gravidade da anemia, leucopenia e/ou plaquetopenia), se há e qual é a alteração citogenética e qual a porcentagem de blastos na medula. Esses fatores são considerados prognósticos e existem alguns escores que ajudam o médico na decisão terapêutica.

O tratamento vai depender, em grande parte, do subtipo de SMD, dos sintomas apresentados e da idade do paciente. A maioria dos tratamentos não cura, mas podem melhorar os sintomas e ajudam o paciente a se sentir melhor. Para isso, pode ser necessário transfusões de sangue e medicamentos como os fatores de crescimento hematopoético. Alguns quimioterápicos, como a azacitidina e a decitabina, também podem ser utilizados em grupos de alto risco e, recentemente, a associação desses medicamentos como venetoclax (inibidor do BCL-2) vem sendo indicada para casos selecionados. Inúmeros medicamentos vêm sendo testados para pacientes com algumas alterações moleculares específicas. A lenalidomida, por exemplo, já é indicada há muitos anos para pacientes com deleção 5q. O transplante de medula óssea (atualmente chamado de transplante de células tronco hematopoéticas, ou TCTH) é recomendado para pessoas dos grupos de maior risco, menores de 75 anos, sem comorbidades relevantes e que tenham um doador, não sendo recomendado para pessoas com menor risco de doença. Apesar de liberado até os 75 anos, pacientes com mais de 60 anos, que tenham condições clínicas de receber o transplante, devem receber regimes de condicionamento de intensidade reduzida.

Síndrome Mielodisplásica (SMD) – parece uma anemia simples mas não é!

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Texto elaborado e revisado por
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos  
Médica  do corpo clínico do INGOH
Especialista em Hematologia – Hemoterapia
CRM-GO 12.406/RQE 22965.
Texto revisado em Agosto de 2022.
É permitida a reprodução parcial 
ou total desta obra, desde que 
citada a fonte e que não seja para 
venda ou qualquer fim comercial

Referências:
  1. CHAUFFAILLE MLLF. Neoplasias mieloproliferativas: revisão dos critérios diagnósticos e dos aspectos clínicos. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2010;32(4):308-316 (Principal, mas os critérios foram atualizados na última versão do livro da OMS)
  2. FIGUEIREDO MS, KERBAUY J, LOURENÇO DM. Hematologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP-EPM. Manole, 2011.
  3. ZAGO MA, FALCAO RP, PASQUINI R. Tratado de Hematologia. Atheneu, 2014.
  4. CONITEC. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da leucemia mieloide crônica do adulto – Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2020/PCDT_LeucemiaMieloideCronicaAdulto_CP_02_2020.pdf
  5. SWERDLOW SH ets al. WHO classification of Tumors of Haematopoietic ans Lymphoid Tissue. IARC: Lyon, 2017.

Ingoh é arte por toda parte!

Programa de musicoterapia leva arte para pacientes oncológicos

Ingoh é arte por toda parte! – O câncer e o tratamento oncológico muitas vezes causam sofrimento emocional, como raiva, ansiedade, depressão e incertezas. Pensando nisso, o Ingoh promove ações semanais de musicoterapia para seus pacientes por meio do Programa INGOH é arte por toda parte. A utilização da música e/ou instrumentos musicais é feita pelo musicoterapeuta afim de promover a comunicação, a aprendizagem e a organização física, emocional e social no paciente para melhorar a qualidade de vida durante o tratamento oncológico.

A música é um agente personalizado, pois, muitas vezes o paciente utiliza esse momento para relembrar uma canção que gostava durante a juventude ou que representa a força necessária para continuar o tratamento. Caike Morais, musicoterapeuta, destaca a memória afetiva que a música provoca. “Ao ouvir uma canção que faz parte da sua memória sonora o paciente se sente muito acolhido e se emociona com lembranças que foram boas em seu passado”, conclui.

Para Juliana Ellen, paciente oncológica, a musicoterapia auxilia a tirar o foco da medicação que está sendo aplicada. “A música traz leveza, melhora o dia e ainda distrai enquanto recebo a medicação”, comenta.  O musicoterapeuta, Willian Januário, reforça a importância de iniciativas como essa para o bem estar do paciente. “A gente percebe pelo olhar o momento do encontro com a música. Música é saúde, ela na verdade não muda só o paciente como também o ambiente”, observa.

Na experiência do colaborador a música também exerce melhoria no ambiente do trabalho, estimula o trabalho em equipe e a colaboração, além de ser um momento de descontração que promove a amizade com os pacientes. Para Letícia Montalvão, enfermeira, a musicoterapia é um momento único da semana. “A musicoterapia alivia o ambiente, mostra a importância do paciente na nossa instituição, demostra carinho, amor e acolhimento. Ela acalma o coração, além de melhorar a comunicação do paciente com a equipe”, destaca.

Os benefícios da musicoterapia vão desde a redução de estresse e ansiedade, até mudanças de comportamento no paciente, o que contribui para a aceitação do tratamento e no controle das emoções. “Às vezes a gente chega e o clima está pesado, a pessoa está aborrecida devido ao problema que está enfrentando, mas depois falam que a música mudou o dia deles”, comenta Willian. A experiência do paciente é uma inovação e um diferencial no Ingoh, ações como essa contribuem para que a rotina oncológica se torne mais leve e descontraída.

Texto e Fotos: Jhiwslayne Vieira | INGOH

Confira algumas fotos desse momento:

Linfoma do Manto: saiba mais sobre esse tipo raro de linfoma não-Hodgkin de células B.

"Linfoma do Manto: entenda esse raro tipo de linfoma não-Hodgkin de células B, seus sintomas, diagnóstico e opções de tratamento."

Linfoma do Manto: saiba mais sobre esse tipo raro de linfoma não-Hodgkin de células B. – Quem está mais atento ao assunto linfoma sabe que existem mais de 50 subtipos e cada um deles se comporta de forma peculiar. Neste texto iremos abordar os Linfomas do Manto, mas se quiser ler sobre linfomas de uma forma mais geral, clique aqui 1, e se quiser entender melhor a classificação de linfomas e leucemias linfoides, clique aqui 2.

Como surge o linfoma do manto

Os linfócitos são soldados de defesa do organismo que nascem na medula óssea (tutano no osso), circulam pelo sangue e estão predominantemente armazenados nos gânglios linfáticos (linfonodos). Dentro do linfonodo, os linfócitos se colocam em posições específicas de acordo com sua função. Assim, microscopicamente, os linfócitos B se dispõem dentro de folículos e os linfócitos T se dispõem ao redor destes folículos, todos dentro da zona cortical dos linfonodos. 

Dentro dos folículos, os linfócitos B entram em contato com o antígeno, geralmente proveniente de um microorganismo e que é o estimulante da resposta imune. Os linfócitos B são ativados e formam uma região chamada de centro germinativo. Ao redor do centro germinativo, mas ainda dentro do folículos (ou seja, ainda em uma zona de linfócitos B) está a zona do manto. Esta zona é formada por aqueles linfócitos B que ainda não tiveram contato com o antígeno estimulador da resposta imune, chamadas de naive (virgens), porque ainda não encontraram antígeno. A maioria dos casos de Linfoma de células do Manto (LCM) são derivados de células B pré-centro germinativo naive (virgens) da zona do manto, enquanto um subconjunto pode se originar da zona marginal ou células B de memória do sangue periférico.

 

Figura 1: Estrutura esquemática de um linfonodo.

Quando uma pessoa tem linfoma, a célula maligna linfoide começa a produzir cópias idênticas de si mesma (clones) e frequentemente causam o aumento dos linfonodos. Também podem apresentar massas em outras partes do organismo, já que o tecido linfoide está presente em todo o nosso corpo. Há mais de um século, os linfomas foram classificados como tendo as células de Reed-Sternberg (RS), ao que foi chamado de Doença de Hodgkin, ou aqueles que não tinham a célula de RS, chamados de Linfomas Não-Hodgkin. O Linfoma do Manto é considerado um tipo de Linfoma Não Hodgkin. 

Epidemiologia

O Linfoma de células do manto (ou Linfoma do Manto, LCM) representa cerca de 7% de todos os linfomas não Hodgkin de células B, ou seja, é muito menos frequente que os outros linfomas, como o Linfoma Difuso de Células B e o Linfoma Folicular. Embora seja frequentemente discutido em conjunto com as formas indolentes de LNH, seu comportamento é mais frequentemente o de um linfoma agressivo. Geralmente compromete mais homens idosos e a idade mediana ao diagnóstico é de 68 anos. 

Quadro Clínico (quais os sinais da doença)

A maioria das pessoas (75%) com Linfoma do Manto nota, à princípio, um ou mais linfonodos aumentados de tamanho. Esses linfonodos inchados podem estar em qualquer parte do corpo, como pescoço, virilha ou dentro da barriga. Também podem apresentar febre, perda de peso, suores noturnos que encharcam as roupas, dor, além de cansaço e fraqueza. Além disso, cerca de 25% dos casos se apresentam com doença extranodal (fora dos linfonodos), sendo a maioria dos casos no trato gastrointestinal.

Do ponto de vista molecular

Está associado a alterações nos mecanismos naturais de reparo de dano de DNA, principalmente comprometendo a proteína chamada ciclina D1, envolvida nos processos de controle da apoptose. A apoptose é um mecanismo de morte programada, que todas as nossas células possuem, e que ativa proteínas específicas caso algum problema seja identificado na divisão celular (mutações, quebras de DNA ou outros erros de replicação). A ciclina D1 não é expressa em linfócitos B normais. A expressão da ciclina D1 promove a transição do ciclo celular da fase G1 para a fase S e proliferação, mas a expressão da ciclina D1 por si só não é suficiente para a transformação de linfócitos B normais. Além da expressão da ciclina D1, os tumores LCM demonstram uma diminuição da resposta ao dano ao DNA e aumento da sobrevida celular (apoptose prejudicada). Alterações nessas três vias (ou seja, ciclo celular, reparo de DNA e apoptose) são, portanto, importantes para a transformação neoplásica.

 

Figura 2. Modelo hipotético dos principais subtipos de linfoma de células do manto (LCM). 

Postula-se que a maioria dos casos de LCM derive de células B pré-centro germinativo naives (virgens) da zona do manto, enquanto um subconjunto de LCM pode se originar da zona marginal ou células B da memória do sangue periférico. A ancestralidade pré-centro germinativo da maioria dos LCMs é apoiada principalmente pela ausência de mutações somáticas nos genes da região variável de cadeia pesada da imunoglobulina (IgVH), que servem como um marcador de trânsito pelo centro germinativo. As células B podem colonizar a porção interna da zona do manto, representando a neoplasia de células do manto in situ (LCMis). Após a aquisição de anormalidades genéticas e moleculares adicionais, o LCMis pode progredir, envolvendo ou não o processo de trânsito pelo centro germinativo (CG), para a forma clássica ou para a forma não nodal leucêmica, respectivamente. Mais frequentemente, o LCM clássico, mas também o LCM não nodal leucêmico podem sofrer anormalidades moleculares/citogenéticas adicionais que levam à progressão clínica e, às vezes, morfológica. Adaptado de Swerdlow et al. e Roue et al.

 

O LCM está associado a uma alteração citogenética clássica e adquirida (não é herdada dos pais), que é a translocação recíproca entre um pedaço do cromossomo 11 e do cromossomo 14. Esta translocação coloca um gene muito ativado em linfócitos (porção variável do gene da imunoglobulina) junto a um oncogene, que por fim leva à superexpressão da ciclina D1. A demonstração dessa proteína é muito importante na definição diagnóstica do linfoma do manto, já que este pode se “parecer” morfologicamente com outras neoplasias linfoides e a ciclina D1 está positiva em mais de 90% dos casos. As principais neoplasias que podem se parecer com o linfoma do manto são a leucemia linfocítica crônica, o linfoma folicular, o linfoma da zona marginal e o linfoma linfoblástico. Uma minoria dos casos não demonstra ciclina D1, mas muitas vezes super expressa outros mediadores do ciclo celular, particularmente ciclina D2 e ciclina D3. O LCM, incluindo casos negativos de ciclina D1, está frequentemente associado à expressão alterada de SOX11, um fator de transcrição que pode contribuir para um bloqueio na diferenciação em células deste linfoma. A Mutação do TP53, mais do que a deleção do TP53, está associada a um pior prognóstico.

Diagnóstico

Para confirmar o diagnóstico serão necessárias biópsias: do linfonodo, de outro órgão comprometido e de medula óssea. Essas biópsias necessitam ser avaliadas por um patologista especialista em neoplasias hematológicas. Nestes casos, é muito importante que toda a equipe (cirurgião que faz a biópsia, endoscopista, patologista e hematologista) estejam em sintonia e conversem entre si para que este possível diagnóstico não seja negligenciado. O padrão histológico pode ser difuso, nodular ou zona do manto. Alguns casos  são descritos como uma combinação dos três padrões. A maioria dos casos é composta exclusivamente de células linfoides de pequeno a médio porte, com núcleos ligeiramente irregulares ou “entalhados”.

O exame de imunohistoquímica, que analisa, além de outros marcadores, a presença da ciclina D1, ajuda muito nesses casos. Alguns dados de imunofenotipagem também ajudam a estabelecer o diagnóstico de linfoma do manto, que é considerado uma doença linfoproliferativa CD5 +. As células do linfoma do manto expressam altos níveis de IgM e IgD de superfície, em geral com expressão da cadeia leve lambda, que é vista em até 80% dos casos. Eles também expressam antígenos de células pan-B (por exemplo, CD19, CD20), CD5 e FMC7. Casos raros podem ser CD5– ou CD23+.

A maioria dos casos irá apresentar a t(11;14), identificada por por citogenética convencional ou hibridização in situ por fluorescência (FISH), embora esse rearranjo não seja específico para LCM. Quando o linfoma do manto envolve o trato gastrointestinal (polipose linfomatosa), as células tumorais expressam a integrina da molécula de adesão alfa-4/beta-7 (CD49d), que normalmente está envolvida no direcionamento de linfócitos para vênulas nos tecidos linfoides associados ao intestino. 

Dessa forma, podemos dizer que, em geral, para diagnóstico do LCM se identifica um padrão monomórfico de linfócitos B de pequeno a médio porte com núcleos irregulares e a imunohistoquímica é positiva para translocação de ciclina D1 (BCL1). Alguns casos irão necessitar da citogenética convencional ou FISH demonstrando a t(11;14)(q13;q32) entre o CCND1 e a cadeia pesada de imunoglobulina (IgH). 

Estadiamento

Além de uma história clínica e exame físico muito bem executados, a avaliação pré-tratamento inclui estudos laboratoriais, que incluem hemograma completo, bioquímica do sangue com análise de função hepática e renal, além de eletrólitos, desidrogenase lática (DHL), ácido úrico e sorologias para hepatite B e HIV. PET/CT e biópsia de medula óssea também são necessários. Podem ser solicitados outros estudos para sintomas específicos. Dessa forma, punção lombar com análise de liquor (que é o líquido que banha o cérebro) pode ser necessário nos casos com variante blastoide ou quando há sinais de comprometimento do SNC. Endoscopia digestiva alta e colonoscopia são realizadas em pacientes com sintomas gastrointestinais ou achados em exame físico sugestivos de envolvimento gastrointestinal, mas podem ser indicados em assintomáticos quando este  envolvimento muda o manejo (por exemplo, doença estágio I/II).

Esses exames servem para estabelecer o quanto o linfoma está comprometendo o corpo e compõem o que chamamos de estadiamento. Usualmente, o LCM é identificado em estadio avançado (estadio IV), envolvendo linfonodos acima e abaixo do diafragma, podendo comprometer as chamadas regiões extranodais (aqui se destaca o comprometimento do trato gastrointestinal) e medula óssea. Além disso, as células doentes podem ser encontradas no sangue periférico, situação que comumente é chamada de linfoma leucemizado. 

Tratamento 

O tratamento dependerá de alguns fatores como: 

  • sintomas apresentados,
  • localização dos linfonodos comprometidos pelo linfoma, 
  • idade
  • outras condições médicas (doenças cardíacas, renais, diabetes, dentre outras). 

Quase todos os pacientes precisam de um estudo inicial da fração de ejeção cardíaca (por exemplo, por ecocardiograma) antes de receber um dos componentes do tratamento, chamado de antraciclina. Antes do início do tratamento, homens e mulheres com potencial para gerar filhos devem receber aconselhamento sobre o eventual efeito do tratamento em sua fertilidade e devem ser aconselhados a considerar medidas de preservação da fertilidade.

A terapia pode incluir:

  • quimioterapia, medicamentos que matam as células cancerosas ou impedem que elas cresçam através de ações no ciclo celular;
  • radioterapia;
  • anticorpos monoclonais, que são proteínas criadas em laboratório e que matam as células cancerígenas usando moléculas de superfície celular como alvo;
  • terapia de alvo com inibidores de tirosina quinase visando moléculas expressas dentro da célula B que, em geral, tem ação sobre a tirosina quinase de Bruton que faz parte da via de sinalização do receptor do linfócito B e encontra-se altamente ativada em neoplasias linfoproliferativas.
  • cirurgia, que geralmente não é benéfica, mas pode ser valiosa em pacientes que apresentam obstrução intestinal, por exemplo.

Existe um pequeno subgrupo de pacientes que terá um curso mais indolente e pode não necessitar de tratamento inicialmente. No entanto, a maioria dos pacientes necessita de tratamento ao diagnóstico. Em pacientes jovens com boa condição de saúde, pode-se utilizar tratamento com imunoquimioterapia mais agressiva, seguido de transplante de medula óssea autólogo. É importante entender que há grande diversidade de práticas clínicas e ambiguidades em torno da melhor abordagem de tratamento preferencial para pacientes com linfoma do manto.

Em geral o esquema de indução inclui imunoquimioterapia, com um anticorpo monoclonal anti-CD20 (rituximabe, por exemplo) associado a esquema quimioterápico convencional como CHOP, bendamustina e eventualmente  esquema mais agressivo como o HYPERCVAD ou esquema alternando CHOP e DHAP. 

A resposta ao tratamento é determinada usando informações coletadas de história clínica, exame físico, testes laboratoriais e tomografia computadorizada. Caso tudo estiver como planejado, o regime de primeira linha é continuado, ou se não houver uma boa resposta, o tratamento de segunda linha pode ser oferecido. Se tudo correr bem com o protocolo de primeira linha, são solicitados exames de sangue para avaliar novamente a resposta ao tratamento ao final dos ciclos planejados. Se houver uma boa resposta, a “manutenção” por 2 a 3 anos com um anticorpo monoclonal anti-CD20 (por exemplo, rituximab) em geral é oferecida. Existem inúmeros medicamentos que podem ser considerados em caso de recaída ou refratariedade da doença e vários estudos clínicos estão sendo conduzidos nesta área.

O curso do LCM é moderadamente agressivo e variável. Vários estudos tentaram determinar os fatores prognósticos para prever quais pacientes terão um curso mais agressivo. Os sistemas de pontuação mais comumente utilizados envolvem fatores como idade, nível de DHL, estado geral de saúde (escala ECOG ou performance status), contagem de leucócitos em sangue periférico (hemograma), dentre outros.

O linfoma de células do manto é uma doença rara que pode ser difícil de diagnosticar e difícil de tratar. Apesar de todos os esforços, a terapia não é curativa. Alguns pacientes irão atingir remissão e outros irão necessitar de retratamento de tempos em tempos. Estes pacientes deveriam ser sempre tratados por um especialista com experiência neste tipo de linfoma, para garantir uma boa qualidade de vida, com poucos sintomas associados ao tratamento. A boa notícia é que mais de uma dezena de terapias estão em estudo e algumas alternativas já se mostraram promissoras em segunda linha.

Se você foi diagnosticado com este tipo de linfoma, fale com seu médico sobre qualquer dúvida ou preocupação que tenha e tente entender suas opções de tratamento. Cada caso tem suas particularidades e só seu médico sabe todos os detalhes. Dessa forma,  será possível decidir qual tratamento é o mais adequado para você. 

Fique atento que o que foi dito aqui só se aplica ao linfoma do manto! Outros tipos de linfoma têm comportamentos diferentes e necessitam de tratamento específico.

Linfoma do Manto: saiba mais sobre esse tipo raro de linfoma não-Hodgkin de células B.

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Texto elaborado e revisado por
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos  
Médica  do corpo clínico do INGOH
Especialista em Hematologia – Hemoterapia
CRM-GO 12.406/RQE 22.965.
Texto revisado em Junho de 2022.
É permitida a reprodução parcial 
ou total desta obra, desde que 
citada a fonte e que não seja para 
venda ou qualquer fim comercial

 


Referências:
  • ALAGGIO R , AMADOR, C., ANAGNOSTOPOULOS, I. ET AL. The 5th edition of the World Health Organization Classification of Haematolymphoid Tumours: Lymphoid Neoplasms. Leukemia 2022; 36, 1720–1748. https://doi.org/10.1038/s41375-022-01620-2.
  • BROWN JR, FREEDMAN AS, ASTER JC. Pathobiology of mantle cell lymphoma In: UpToDate, LISTER A & ROSMARIM A(Ed), Waltham, MA. (Visitado em junho de 2022).
  • CHERSON BD ET AL. Recommendations for Initial Evaluation, Staging, and Response Assessment of Hodgkin and Non-Hodgkin Lymphoma: The Lugano Classification. Clin Oncol 2014; 32:3059-3067.
  • FIGUEIREDO MS, KERBAUY J, LOURENÇO DM. Hematologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar. UNIFESP-EPM. Manole, 2011.
  • FORONES NM ET AL. Oncologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP-EPM. Manole, 2005; capítulo 44, 321-336. (Classificação clínica)
  • FREEDMAN AS, ASTER JC. Clinical manifestations, pathologic features, and diagnosis of mantle cell lymphoma. In: UpToDate, LISTER A & ROSMARIM A(Ed), UpToDate, Waltham, MA. (Visitado em junho de 2022).
  • FREEDMAN AS, FRIEDBERG JW.. Initial treatment of mantle cell lymphoma. In: UpToDate, LISTER A & ROSMARIM A(Ed), UpToDate, Waltham, MA. (Visitado em junho de 2022)
  • FREEDMAN AS, FRIEDBERG JW. Treatment of relapsed or refractory mantle cell lymphoma. In: UpToDate, LISTER A & ROSMARIM A(Ed), UpToDate, Waltham, MA. (Visitado em junho de 2022)
  • HOFFBRAND AV & MOSS PAH. Fundamentos em Hematologia. 6. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.
  • HOFFMAN et al, Hematology, basic principels and practice, 4. Edição
  • LONGO, DJ. Harrison’s Hematology and Oncology, 2ed. 
  • ROUE G & SOLA B. Management of Drug Resistance in Mantle Cell Lymphoma. Cancers 2020, 12, 1565; doi:10.3390/cancers12061565
  • SWERDLOW SH et al. WHO classification of Tumors of Haematopoietic and Lymphoid Tissue: IARC: Lyon 2017
  • ZAGO MA, FALCAO RP, PASQUINI R. Tratado de Hematologia. Atheneu, 2014. 

Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose

Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose

Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose – Sabe aquele quadro de anemia que você pode estar tratando há algum tempo e não melhora? Principalmente se esse quadro vier acompanhado de aumento na contagem de plaquetas, pode ser um caso de Mielofibrose Primária ou Idiopática (MF).

A Mielofibrose Primária é um tipo de Neoplasia Mieloproliferativa Crônica (NMPC), grupo de doenças com características semelhantes e que já discutimos em outro post. (clique aqui para ler mais)

Estima-se que a MF tenha uma incidência de 0,5 a 1,5 casos por 100.000 habitantes por ano, ou seja, é uma doença relativamente rara. Acomete pessoas mais idosas, em geral, acima dos 60 anos. Aproximadamente 5 e 17% dos pacientes são diagnosticados antes dos 40 e 50 anos, respectivamente.

Um quarto dos pacientes não apresenta nenhum sintoma e são identificados quando o hemograma é solicitado como avaliação de rotina. Quando existe alteração, a mais comum é o aumento do baço ou esplenomegalia (identificado pelo exame físico). Os demais casos, os que apresentam sintomas, em geral são secundários à:

Tabela 1: Sinais e sintomas associados ao quadro de Mielofibrose Primária.

É uma doença da medula óssea, também conhecida como o tutano do osso. A medula óssea é composta de medula vermelha (que é onde a produção do sangue acontece) e medula amarela (que é formado por células de gordura).

Figura 1: Imagem representativa da medula óssea vermelha e amarela.

A doença acontece na medula vermelha e tem duas fases: fase pré-fibrótica, inicial, onde a medula óssea se encontra hipercelular, o que evolui até a quase substituição do tecido da medula óssea por fibras (fase fibrótica). Nesta última fase, é como se uma grande cicatriz tomasse todo o espaço de formação do sangue na medula óssea, que tem sua produção comprometida. Com isso, o corpo reativa antigos locais de hematopoese (formação do sangue) fetal, como fígado e baço, além de outras regiões, na tentativa de manter a produção de sangue, esse fenômeno é o que chamamos de hematopoese extramedular.

Na MF, a fibrose ocorre por proliferação clonal da célula tronco, onde todas as células são idênticas à que sofreu o evento neoplásico, o que dá vantagem proliferativa a estas células, mantendo a capacidade de se diferenciar nas formas maduras (ao contrário das leucemias aguda, por exemplo, onde a célula neoplásica perde a capacidade de se diferenciar). Esta alteração genética e adquirida leva ao aumento dos megacariócitos (células precursoras das plaquetas), que liberam fator de crescimento fibrogênico. Tal evento é visto na medula óssea (material coletado por biópsia), como mieloproliferação crônica e hiperplasia megacariocítica atípica. A fibrose da medula óssea é a marca registrada da MF e contribui para a hematopoiese prejudicada que leva à anemia grave.

Figura 2: Esquema representativo dos eventos que levam à mielofibrose.

A mutação JAK2 V617F é um marcador genético, que tem sido detectada em cerca de 50% dos pacientes, mas este marcador não é exclusivo de MF e está presente em outras neoplasias mieloproliferativas crônicas. Além disso, a mutação no receptor do fator de crescimento trombopoetina (MPL) foi observada em 9% dos pacientes e mutações em um gene denominado CARL foi detectado em 20-25% dos pacientes. Esses achados, muito mais que o interruptor que desencadeia a doença, são consideradas alterações que acompanham a doença. Ou seja, muito ainda precisa ser compreendido.

Quando nenhum destes genes é encontrado, a definição da doença se torna mais complexa e é necessário afastar outras situações que cursam com fibrose da medula óssea. O primeiro passo é diferenciar a forma aguda da forma crônica. Para isto, solicitamos hemogramas anteriores e verificamos se a alteração já estava presente anteriormente. A MF é uma doença crônica de instalação lenta (anos). Se o quadro se instalou rapidamente é importante avaliar a possibilidade de mielofibrose aguda, que é uma forma rara de leucemia mieloide aguda (LMA). Nos casos onde a instalação lenta é confirmada, é importante afastar a possibilidade de neoplasia mieloproliferativa Philadelphia (Ph) positivo (leucemia mieloide crônica), o que é feito por estudo citogenético/molecular. A presença de diseritropoese (displasia do setor eritroide) com ou sem monocitose chama atenção para um grupo de doenças chamado de neoplasia mieloproliferativa/mielodisplasia (NMP/SMD). Outras neoplasias mieloproliferativas crônicas Ph negativo, como a polictemia vera (PV), trombocitemia essencial (TE) devem ser consideradas. É necessário ficar atento, também, a outras condições hematológicas, como leucemia de células pilosas (tricoleucemia), linfoma e mieloma múltiplo também devem ser avaliados. Além disso, neoplasias malignas metastáticas para a medula óssea, doenças autoimunes (como LES, esclerodermia, polimiosite e outras), hipertensão pulmonar primária, hiperparatireoidismo secundário e osteodistrofia renal precisam ser avaliados como diagnóstico diferencial.

Com relação ao tratamento, a maioria dos pacientes não vai precisar dele por muitos anos. Alguns, com anemia mais grave, precisarão receber transfusão de sangue. Outros, receberão um quimioterápico oral para controle do aumento de células no sangue periférico (detectado no hemograma). Alguns poucos, terão doença mais agressiva, que é medida por um conjunto complexo de critérios pré-estabelecidos, e poderão receber um medicamento que bloqueia a sinalização na via da JAK, que, como já falamos antes, está implicada no processo da doença. 

Para pacientes com doença de alto risco, principalmente os  mais jovens e que tenham doador, o transplante de células tronco deve ser considerado como a melhor opção de tratamento. A elegibilidade do transplante varia entre as instituições e geralmente é baseada na aptidão médica e no desempenho funcional. Não existe uma idade específica acima da qual o risco supere claramente os benefícios em pacientes com MF de alto risco.

Em geral, utiliza-se, para todos os casos, um antiagregante plaquetário com o intuito de evitar as tromboses, que acabam sendo as complicações mais temidas. Alguns pacientes que já tiveram trombose venosa, podem necessitar de anticoagulação.

Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose

 

Texto elaborado e revisado por
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos  
Médica  do corpo clínico do INGOH
Especialista em Hematologia – Hemoterapia
CRM-GO 12.406/RQE 22965.
Texto revisado em Junho de 2022.

É permitida a reprodução parcial 
ou total desta obra, desde que 
citada a fonte e que não seja para 
venda ou qualquer fim comercial.

 


Referências:
  1. CHAUFFAILLE MLLF. Neoplasias mieloproliferativas: revisão dos critérios diagnósticos e dos aspectos clínicos. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2010;32(4):308-316 (Principal, mas os critérios foram atualizados na última versão do livro da OMS)
  2. FIGUEIREDO MS, KERBAUY J, LOURENÇO DM. Hematologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP-EPM. Manole, 2011.
  3. ZAGO MA, FALCAO RP, PASQUINI R. Tratado de Hematologia. Atheneu, 2014.
  4. SWERDLOW SH et al. WHO classification of Tumors of Haematopoietic and Lymphoid Tissue: IARC: Lyon 2017
  5. TEFFERI A. Management of primary myelofibrosis (2022). In: LARSON RA, ROSMARIN AG. UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/management-of-primary-myelofibrosis?search=myelofibrosis&topicRef=4526&source=see_link#H578018087 Visitado em junho de 2022.

    Fique atento a esta causa de anemia: Mielofibrose

 

Neoplasias mieloproliferativas crônicas (NMPC)

Neoplasias mieloproliferativas crônicas (NMPC) – A célula tronco é uma célula que está localizada na medula óssea (tutano do osso)  e é capaz de se auto-renovar, mas também originar dois tipos de células, os progenitores linfoides e os mieloides. Os progenitores mieloides geram, em última instância, as células vermelhas, as plaquetas e os granulócitos (neutrófilos, eosinófilos e basófilos). Quando há uma alteração genética nestas células (em geral, adquirida e muito raramente de forma hereditária), pode ocorrer uma transformação neoplásica, ou seja, origina-se um tipo de câncer, que promove um aumento na proliferação de todos os elementos que se originam da célula progenitora mieloide e, por isso, é chamada de neoplasia mieloproliferativa.

As neoplasias  mieloproliferativas crônicas (NMPC), incluem várias doenças, dentre elas:

  • leucemia mieloide crônica (LMC),
  • policitemia vera (PV), 
  • mielofibrose primária (MFP), 
  • trombocitemia essencial (TE).

Neoplasia mieloproliferativa crônica Ph positiva

Muito importante nesses casos, é fazer a pesquisa do cromossomo Philadelphia (Ph) e/ou do gene BCR/ABL, que se positivo indica LMC. A LMC, num primeiro momento, se parece muito com outras NMPC, mas tem uma evolução muito distinta, onde praticamente 100% dos pacientes evoluem com transformação para leucemia aguda em cerca de 5-10 anos.  Foi uma das primeiras neoplasias a ter sua causa genética (que não é hereditária) bem definida e, no final da década de 90, foi desenhada uma molécula capaz de impedir esta progressão. Esse é um dos grandes exemplos de avanço na ciência que mudou a trajetória natural de uma doença.  Os pacientes com LMC, adequadamente identificados e tratados, têm a mesma expectativa de vida que as pessoas da sua idade que não têm a doença! 

Neoplasias mieloproliferativas crônicas Ph negativas

Se o paciente não tem o cromossomo Philadelphia, chamamos de NMPC Philadelphia negativo e normalmente são casos de Policitemia Vera (PV), Mielofibrose (MF) ou Trombocitemia Essencial (TE). Costumam ser doenças com um comportamento mais indolente (crescimento lento e menos consequências clínicas).

No início do milênio, um marcador genético foi identificado para ajudar na identificação das NMPC Ph negativas. Se trata de uma mutação no gene JAK2, proteína que funciona como um mensageiro entre a superfície celular e o núcleo. Cerca de 90% dos pacientes com PV tem esta mutação; pacientes com MFP e TE também podem apresentá-la em menores proporções.

Caso o paciente tenha o teste da JAK2 negativo, ainda pode ser portador de NMPC e, nesses casos, é o conjunto de achados do exame físico, hemograma e dos exames de medula óssea que ajudarão na definição diagnóstica. Quando há aumento predominante de série vermelha (hemoglobina alta) chamamos de Policitemia Vera, quando há fibrose na análise  da biópsia de medula, chamamos de Mielofibrose e quando há predomínio de plaquetas elevadas, chamamos de Trombocitemia Essencial. A diferença entre estes tipos nem sempre é tão simples e um médico especialista faz toda a diferença no tempo que se demora para estabelecer o diagnóstico final. Há necessidade de afastar causas secundárias, como outros tipos de câncer, algumas infecções crônicas e quadros inflamatórios (doenças autoimunes, por exemplo). Além disso, na policitemia vera é importante afastar doenças pulmonares com baixa oxigenação, como asma grave, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e apneia do sono. A Mielofibrose tem uma proporção de transformação para leucemia aguda de cerca de 10%, uma taxa bem menor que a LMC, mas mais importante que na PV e na TE.  Ou seja, é importante fazer uma classificação correta para estimar os risco que o paciente corre por ser portador da doença.

Uma complicação relevante que deve ser sempre considerada é o fato de que todas essas doenças aumentam o risco de trombose, seja venosa (trombose venosa profunda, tromboembolismo pulmonar), seja arterial (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Assim, muitas vezes alguns medicamentos são indicados para reduzir este risco. Em alguns casos, as NMPCs são identificadas quando o paciente vem para o hematologista para investigação da causa de uma trombose.

Se você tem alguma destas condições, apenas o médico especialista, que é o hematologista, pode te dizer como o seu caso se comporta. Se tiver alguma dúvida, não deixe de conversar com o seu médico.

Neoplasias mieloproliferativas crônicas (NMPC)
Texto elaborado e revisado por
Dra. Mireille Guimarães Vaz de Campos  
Médica  do corpo clínico do INGOH
Especialista em Hematologia – Hemoterapia
CRM-GO 12.406/RQE 22965.
Texto revisado em postado em Maio de 2022.

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Referências:
  1. CHAUFFAILLE MLLF. Neoplasias mieloproliferativas: revisão dos critérios diagnósticos e dos aspectos clínicos. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2010;32(4):308-316 (Principal, mas os critérios foram atualizados na última versão do livro da OMS)
  2. FIGUEIREDO MS, KERBAUY J, LOURENÇO DM. Hematologia – Guias de Medicina Ambulatorial e Hospitalar UNIFESP-EPM. Manole, 2011.
  3. ZAGO MA, FALCAO RP, PASQUINI R. Tratado de Hematologia. Atheneu, 2014.
  4. CONITEC. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas da leucemia mieloide crônica do adulto – Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2020/PCDT_LeucemiaMieloideCronicaAdulto_CP_02_2020.pdf
  5. SWERDLOW SH et al. WHO classification of Tumors of Haematopoietic and Lymphoid Tissue: IARC: Lyon 2017